quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Regras


Uma das preocupações que tenho na educação dos meus filhos é a de não criar regras a que eu não me sujeite também. Sou da opinião de que é mais fácil criar regras do que segui-las, e por isso cumpri-las legitima o seu estabelecimento.
Acompanhei a odisseia da família deportada pelo Canadá para Portugal por falta de visto de residência naquele País. E percebo o enorme drama que deve ser, na vida de alguém, ter de emigrar para um País que não é o seu, ter de adotar uma língua que não é a sua, observar costumes estranhos, uma vez que seja. Só que aquele nosso compatriota, que já se havia sujeitado a tudo isso uma vez, recomeçando a sua vida na América, viu-se agora forçado de novo a passar por esse sacrifício, juntamente com a sua família. Lamento que a vida traga tantas dificuldades para pessoas que apenas querem seguir em frente.
Mas também é um facto que o Canadá, como nação soberana que é, tem regras, na emigração como noutras questões.
Por isso não compreendo a cobertura que foi dada por alguma comunicação social de crítica à posição do Canadá; e compreendo ainda menos a posição do Governo Português, que pediu "um acto de clemência" para com aquela família.
Se ninguém discute que a regra existe; se ninguém discute que, tecnicamente, a decisão de expulsão do país foi bem tomada, onde é que se pretende chegar? Não perceberão os nossos políticos que é o seu péssimo hábito de tentar furtar-se ao cumprimento das regras que eles próprios criam uma das coisas que mais os descredibiliza?
Em Portugal, para todas as regras, achamos sempre que se "pode dar o jeito", ou seja, contornar as regras. Achamos bem que os outros tenham de as cumprir, mas achamos também que temos um bom motivo para que elas não se nos apliquem. E o Canadá acaba de nos dar um belo exemplo daquilo para que servem as regras: para se cumprirem!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Quem dá aos pobres...


Coloco sempre reticências quando vejo alguém alardear a caridade que diz fazer. E foi exactamente com essas reticências que encarei a divulgação de mais uma iniciativa da Câmara: a de "distribuir diariamente os excedentes das refeições de três refeitórios municipais por famílias carenciadas do concelho." (Fonte: Expresso Online).
Parece-me uma iniciativa adequada, mas mal comunicada. Porque se refere à doação de "sobras"; porque mistura na mesma frase "excedentes" com "lixo"; e finalmente porque evidencia à saciedade que esta ação não é integrada num plano ou numa estratégia de combate à pobreza, mas antes resulta de uma inspiração do momento; sim, porque não é de agora que existem "sobras", nem "famílias carenciadas", para usar os termos da responsável pela comunicação desta proposta...
Por último, se é certo que "quem dá aos pobres, empresta a Deus", também não é menos certo que a verdadeira generosidade consiste em dividir aquilo que temos, não em dar aquilo que não queremos...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

Já devo aqui ao blogue algumas crónicas que li aos microfones da Rádio Altitude, que teve uma vez mais a amabilidade de me renovar o convite para quinzenalmente estar naquele espaço de intervenção cívica.
Aqui fica a primeira da temporada; as outras, seguem dentro de momentos...

"Vivemos dias agitados. O vento forte que se tem feito sentir deixa-nos apreensivos. Coloca-nos questões. Coloca-nos perante os nossos medos.
Não me refiro ao estado do tempo, no sentido meteorológico. Refiro-me ao verdadeiro furacão que têm sido as notícias dos últimos meses.
Aquilo que ainda há um ano nos parecia pessimismo, é hoje a realidade; e o pessimismo de hoje mostra-nos algo com que nem sequer ousámos alguma vez sonhar!
É pois o tempo de tomarmos atitudes colectivas: de percebermos onde o individualismo e a falta de um projecto comum nos vão conduzir: a sermos marionetas nas mãos de um conjunto de agiotas sem rosto que tudo podem e tudo fazem a coberto do livre funcionamento dos mercados.
Começa a ser preocupante assistir, como temos assistido na Grécia e, mais recentemente, em Itália, a nomeações de Governos que não resultam directamente da vontade expressa dos povos. Como se a Democracia também pudesse ser posta em stand-by para “acalmar os mercados” – um expressão que pretende representar um objectivo que tudo justifica.
Mas há algo que essas entidades sabem e que as assusta: a força que representam os cidadãos quando unidos em torno de um objectivo comum. Por isso os diversos agentes políticos tudo têm feito para dividir as pessoas: os professores e os outros; os juízes e os outros; ou os funcionários públicos e os outros. Deixando sempre de fora alguns que ficam assim numa lógica de contrapeso a medidas duras e que, com o seu silêncio legitimam as injustiças que se cometem por incapacidade de tomar as medidas verdadeiramente estratégicas e cujos efeitos a prazo permitiriam corrigir muitos dos desequilíbrios que hoje nos afligem.
Como já havia aqui referido em crónica anterior, como podemos contar com solidariedade europeia se nem à escala do nosso (pequeno) país podemos contar com essa solidariedade? Veja-se o exemplo da Câmara de Barcelos, cujo Presidente anunciou há semanas que era sua intenção proceder ao pagamento de Subsídios de Férias e Natal em 2012 porque a sua Câmara tinha folga orçamental para tal. Sem a noção de que a Câmara de Barcelos não é a sua quinta, onde põe e dispõe; sem a elevação de perceber que essa suposta folga orçamental poderia ajudar no momento difícil que atravessamos. Que país é este onde uns quantos insistem em manter privilégios, mesmo que olhando para o lado se vejam dificuldades aflitivas? Se os mais desfavorecidos não podem contar com o emprenho de Barcelos, deverão confiar no empenho de Bruxelas?
Esta união em torno do objectivo comum de mantermos a nossa autonomia política é exigente em termos de cidadania. Mais do que nunca, é preciso estar atento ao que nos rodeia, reflectir sobre ele e conhecer a história e as lições que ela nos transmite.
Em momentos de aflição, os povos que depositaram a sua confiança em líderes messiânicos, em salvadores omniscientes, acabaram por dar os piores passos, porque confiaram inteiramente neles e deixaram de confiar em si próprios. E por muito iluminadas que sejam algumas consciências, não podem substituir, em nenhum momento, um conjunto alargado de consciências com diversas vivências, tendências e pontos de vista que são afinal aquilo que caracteriza a diversidade da pessoa humana e um dos pilares sobre os quais assenta a Democracia: o de que a minha opinião de Homem simples tem o mesmo valor que a opinião de qualquer Homem que se considere ou mesmo seja por outros considerado um iluminado.
Mantenhamo-nos pois atentos e sem medo de exprimir as nossas opiniões, pois só elas poderão distinguir os fortes dos fracos. E num momento difícil como o que atravessamos, Portugal – que somos nós todos – precisa muito dos fortes para seguir em frente."


Crónica de 16 de Novembro de 2011

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Maternidade


Hoje, a maternidade da Guarda esteve de novo na ordem do dia. Porque o ambiente é de desconfiança em relação ao seu futuro, que decorrerá da nova carta hospitalar que se espera que brevemente seja apresentada pelo Ministério da Saúde; e porque nesta altura existe sempre alguma curiosidade relativamente ao "bebé do ano" - como convencionou chamar-se ao primeiro bebé nascido na maternidade em cada novo ano.
Ouvi mesmo na rádio a Directora do Serviço de Obstetrícia referir-se à maternidade, às suas instalações, à equipa, ao número de partos, etc. Sobre as instalações, não podia estar mais de acordo com ela: estão longe de ser as ideais, mas como o Hospital vive uma fase de transição para novas instalações - que faço votos que ocorra em breve - esse é um aspecto que deverá ficar resolvido. Quanto à equipa, já não estou tão de acordo com ela...
Tenho da Maternidade do Hospital da Guarda uma ideia diferente da maioria das pessoas. É óbvio que quero que a Guarda tenha uma Maternidade. Que as mulheres da Guarda possam ter filhos na sua terra. Essa é uma questão de saúde, de identidade até! Mas não quero a Maternidade que temos actualmente; quero a Maternidade a que temos direito: com instalações adequadas; com uma equipa profissional; com um serviço que realmente valha aquilo que custa. Porque o meu óbice relativamente à Maternidade da Guarda é este: é demasiado cara para aquilo que oferece. Pelas instalações de que dispõe, desde as enfermarias às casas-de-banho, tudo é desadequado aos objectivos que serve. Mas também a equipa: não basta serem simpáticos; não precisam sequer ser demasiado afetuosos; basta que sejam muito profissionais. E se alguns o são, isso não faz com que a equipa o seja!
Alguém já se preocupou em perceber por que é que há mulheres que vão ter os seus filhos a outro Hospitais, mesmo aqui ao lado? Não me refiro a ter uma vaga ideia do caso A ou B; refiro-me a falar com as pessoas - ou um grupo significativo delas - e realmente estudar o assunto. Desde a última vez em que se falou do fim da Maternidade e a população saiu à rua para exigir - e bem! - a sua manutenção, alguma coisa mudou nas práticas, na dinâmica da equipa, etc.? Daquilo que conheço, não. E é pena...
É certo que a Guarda precisa e quer a sua Maternidade. Mas também os profissionais que lá trabalham têm a responsabilidade de contribuir para a melhoria do serviço e captar assim cada vez mais parturientes - da Guarda, e até das zonas limítrofes. De as envolver e fazê-las participar de um grande momento. Estou convencido que o futuro da Maternidade da Guarda passa por aí. O futuro ou a sua ausência...


domingo, 1 de janeiro de 2012

Bom Ano

Desejo a todos os que continuam a passar por aqui um Bom Ano de 2012. Que pelo menos, quando ele terminar, possamos olhar para trás e perceber que valeram a pena os sacrifícios. Como se diz por cá, "a ver vamos...".
Actualizações seguem dentro de momentos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Hotel de Turismo - que futuro...?


Pelo que tenho ouvido nos últimos meses, o estado actual do Hotel de Turismo está para se manter.
Só o Presidente da Câmara diz que acredita que o projecto vai para a frente dentro em breve; diz que acredita, embora eu duvide que ele acredite realmente...
E o Hotel está entregue à sua sorte porque tem o pior proprietário que um edifício pode ter em Portugal: o Estado. Se o Estado fosse multado pelo Património que tem em más condições, nem 10 Troikas nos valeriam!
Numa altura em que quase todos os investimentos públicos foram parados, em que não há capacidade de tesouraria para cumprir compromissos, só mesmo alguém muito ingénuo acredita que a obra de recuperação do Hotel seja prioritário ao ponto de ser excepção neste movimento de congelamento de novos investimentos. Ingénuo ou mal-intencionado...
Espero francamente que não venha, por necessidade do Estado em realizar alguma liquidez no meio desta enorme crise financeira, a cair nas mãos de um qualquer especulador que acabe por o deixar chegar ao ponto de irrecuperável.

domingo, 9 de outubro de 2011

Medicina Moderna


Aqui há umas semanas atrás foi a peregrina ideia de criar um imposto especial sobre a junk-food. Interessante conceito, que teria certamente subjacente a definição do que cairia nessa categoria por parte de um clínico.
Na semana passada, mais 2 grandes tiradas: o Governo deve incentivar as pessoas a fumar, porque o que pagam em impostos dá para os seus tratamentos, com o bónus de haver a probabilidade de morrerem mais cedo e com isso se poupar no pagamento de pensões; e a constatação de que Portugal já está em bancarrota e não vai cumprir os seus compromissos assumidos internacionalmente.
E pergunto eu: este homem não dorme? Tantas ideias!!!
Pela minha parte dêm-lhe um comprimidozito para dormir; além de prevenir o esgotamento dele, prevenirá também o nosso.
Porque a ideia de taxar a junk-food é das coisas mais ignorantes que tenho ouvido: são os hábitos alimentares que prejudicam a saúde, não a comida em si. Exemplificando: se eu numa refeição comer 3 ovos estrelados e um bife de vitela de 600gr, isto não é uma refeição equilibrada do ponto de vista dietético. E conheço quem seja capaz de o fazer... Mas a mesma refeição com um ovo e um bife de 200gr. já pode ser equilibrada.
A ideia de incentivar o consumo do tabaco, mesmo sendo uma ironia como o mesmo referiu ser, é de tão mau-gosto que o representante dos médicos portugueses devia ser aconselhado a conter a sua veia irónica quando fala em público e, supostamente, em representação da classe.
Por fim, a sua análise macro-económica à verdadeira situação do País só tem um defeito: falta de sustentação e análise científica em dados concretos (que eu saiba, até ao momento, não os apresentou). Assim ao nível de diagnosticar um cancro em fase terminal pela aparência adoentada do paciente. Embora eu acredite que, com tão fina veia irónica, o Sr. Bastonário fosse capaz de o fazer...