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sábado, 14 de julho de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

Em 16 de Maio:


Vou ouvindo, aqui e ali, avisos de quem diz que sabe. 
Que a situação pode explodir a qualquer momento. Que isto está como uma panela de pressão, que de um momento para o outro, se não libertar algum vapor, acabará por explodir. Que o povo começa a dar sinais de não aguentar muito mais. 
Mas não é isso que vejo. Vejo as pessoas com quem falo resignadas, encolhendo os ombros às injustiças de que se dizem vítimas. Olhando para o lado quando do que se fala é das injustiças de que outros são vítimas, tentando passar incólume. Vejo medo na forma de encarar as agressões sucessivas a que todos nos vemos sujeitos: carga fiscal elevada, discricionariedade das finanças na tributação, sem qualquer respeito pelos direitos do cidadãos, justiça incapaz de proteger aqueles que mais precisam. Um Estado que é hoje um pesadelo e das malhas do qual tentamos escapar antes que nos sufoque. 
Os últimos dias têm-nos mostrado que as pessoas querem realmente uma mudança, sem saberem muito bem que mudança é essa. As eleições na Grécia e na França, salvas as devidas proporções, são exemplo disso mesmo. Vê-se nos resultados que as pessoas querem uma mudança. Não só dos atores, mas das escolhas políticas. E vemos que os próprios partidos começam a revelar-se incapazes de dar às pessoas aquilo que elas procuram, aquilo que anseiam. A crise económica estará a conduzir-nos a uma crise democrática? Talvez. Está pelo menos a levar muita gente a interrogar-se se a Democracia, tal como a conhecemos, tal como evoluiu, será capaz de aguentar muitos mais anos… 
 Como forma de Governação, é sem dúvida o melhor sistema que conheço. A representatividade das pessoas, um homem um voto, é ainda aquela que oferece maiores garantias de defesa aos mais fracos. Mas as organizações que estão na base da Democracia – os Partidos – têm sido geridos quase como domínios feudais. Temos assistido incrédulos às mais inacreditáveis manobras para assaltos ao poder dentro dessas organizações. 
E quando os Partidos saem desacreditados, essa imagem transmite-se a todos os que dão a cara por ele, estejam ou não no “mesmo saco”, se me permitem a expressão. Compreensivelmente, existe hoje um conjunto de pessoas cujos valores começam a ser incompatíveis com a imagem que os Partidos dão de si, o que leva ao seu afastamento. Perdendo-se assim pessoas que, pela sua forma de estar, muito podem contribuir para a vida pública, para a renovação dos partidos e para uma mudança decisiva na imagem que os cidadão têm deles. 
Este fenómeno cria um ciclo vicioso que perturba o normal funcionamento da democracia. Enfraquecendo-a.  
O meu desejo, nestes tempos de dificuldades, é que aquilo que aflige as pessoas não lhes tolde a visão e as afaste daquilo que é verdadeiramente importante defender: a dignidade da pessoa humana, acima de todos os interesses. Qualquer que seja a pessoa. 
A história ensina-nos que em épocas difíceis, de cisões sociais, grandes grupos foram capazes de defender o indefensável, de praticar o impensável. 
Tenho a esperança que todos consigamos reunir a coragem – física, mas essencialmente intelectual – para resistir aos apelos mais fáceis e populistas e o discernimento de exigir que sejam preservados os valores sobre os quais se funda a nossa sociedade: o respeito pela pessoa, a solidariedade e o contributo de todos para o bem estar geral. 
 A resposta a estas exigências só pode ser um fortalecimento da Democracia!

terça-feira, 26 de junho de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

A crónica de 2 de Maio:


"Celebrou-se ontem mais um dia do trabalhador. A acreditar nos inquéritos das estações de televisão – que de inquérito, na verdadeira aceção do termo pouco têm – este é um feriado que cada vez tem menos significado para os portugueses. A minha geração, que atualmente representa uma parte muito significativa da força de trabalho disponível no país, entrou no mercado de trabalho quando praticamente tudo estava feito. O descanso semanal, 22 ou mais dias de férias pagas, feriados, pagamentos por horas extraordinárias, horários de trabalho legalmente limitados ou subsídios de férias e de natal são exemplos de benefícios que encontrámos e que julgámos estarem sempre assegurados. Apesar de já não sermos da geração que encarava o emprego como algo definitivo, “para a vida”, como se dizia há muitos anos atrás, achávamos que essa incerteza podia ser contornada, uma vez que vivemos um longo período de crescimento económico e em que havia trabalho para quase todos. Mas um dia percebemos que as coisas não são exatamente assim. E que os benefícios, que alguns conquistaram com longas lutas, manifestações, greves e muita diplomacia afinal poderão não estar assegurados no futuro. Das teorias clássicas da economia, capital e trabalho eram os 2 fatores de produção indispensáveis à produção de riqueza e os motores das lutas de classes que se travaram desde sempre. O Capital – fosse ele a terra, matérias primas ou, mais recentemente, o dinheiro – teve sempre a primazia sobre o trabalho porque estava concentrado nas mão de muito poucos; o trabalho, por outro lado, estava muito disperso, assim dispersando o poder que dele poderia advir. E esse poder só foi concentrado por forma a poder tratar de igual para igual o poder que advinha da posse do capital por ação de gente que lutou para mobilizar os trabalhadores; de gente que se dedicou ao sindicalismo, abdicando muitas vezes do conforto da indiferença e da sua própria segurança pessoal para lutar por uma causa de muitos. Assim foram feitas as grandes conquistas em matéria de proteção dos trabalhadores. Basta recordarmos que há pouco mais de 50 anos férias, descanso no fim de semana ou horários de trabalho eram conceitos ignorados pela maior parte dos trabalhadores. Depois de um período em que todos gozámos os frutos dessas conquistas, vem outro em que tudo é posto em causa. E os sinais que vamos recebendo são preocupantes: o fator trabalho tem sido – pelo menos no nosso país- fortemente desvalorizado, em detrimento do fator capital. E isto ocorre numa época em que todos estamos adormecidos pelo doce perfume dos privilégios que sempre conhecemos. Veja, a título de exemplo, que o Estado cortou os pagamentos pelo trabalho aos seus trabalhadores, mas não cortou os pagamentos por capital aos seus financiadores. Ou seja, mais uma vez a história repete-se: o capital encontra-se concentrado nas mãos de poucos e tem o rosto mais oculto do que nunca, com os grandes fundos globais de investimento a serem o rosto invisível de um poder que tudo pretende submeter à lógica da rentabilidade. E o trabalho está de novo disperso, porque as pessoas afastaram-se das organizações que tradicionalmente os representavam nesta luta – os sindicatos, com grande culpa destes, que não tiveram a capacidade de se adaptar às novas realidades dos tempos que vivemos. Porque o facto de a história se repetir não quer dizer que tal ocorra em contextos exatamente iguais, e os sindicatos não tiveram a lucidez de perceber as diferenças e de se recolocarem no tabuleiro de jogo por forma a tirar partido das novas condições. Exemplos disso mesmo foram as comemorações promovidas para este dia: fórmulas repetidas anos a fio, com a previsibilidade e a rotina a liquidar à partida qualquer hipótese de fazer chegar aos destinatários uma mensagem mobilizadora. Espero que o dia que ontem se celebrou possa ter feito alguns refletir sobre o caminho que as coisas estão a levar. Alguns que possam servir de inspiração para mobilizar aqueles a quem a revolta começa a incomodar seriamente para uma tomada de posição clara face à situação que se vive. Para, quem sabe, novas formas de encarar a defesa do trabalho face às agressões do capital…"

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Concorrência

1. Em 2 praças da Guarda estão instalados ecrâs gigantes de video para as pessoas assistirem aos jogos do Europeu de Futebol; em ambos há esplanadas de bares; num caso foi um bar que pagou a instalação; no outro, foi a autarquia; acham que ambos concorrem em idênticas condições?

2. em 2 ginásios da Guarda o nº de clientes tem baixado devido à subida do IVA e ao agravamento das condições de vida que todos experimentamos; num deles, os gerentes têm de manter os pagamentos a fornecedores, fazer promoções e mesmo baixar o preço das mensalidades para poder subsistir; noutro, o preço consegue ser mais baixo que no primeiro, mas é explorado pela autarquia; acham que ambos concorrem em idênticas condições?

Se há áreas em que o investimento público é fundamental para assegurar o acesso a determinados serviços que não são financeiramente sustentáveis - o TMG é disso um claro exemplo e uma aposta da Câmara à qual reconheço um enorme mérito; outro será o complexo de Piscinas Municipais - outras há em que o investimento público desvirtua o mercado e faz concorrência desleal aos operadores privados. 
Por isso, é importante que se revejam os critérios exploração de atividades económicas por parte da Câmara.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

Crónica em 4 de Abril:

"Em Portugal vivem-se dias de angústias e incertezas. Incertezas quanto ao futuro do emprego, do “wellfair state” que era um dos desígnios do 25 de Abril que dentro de 3 semanas comemoraremos, quanto àquilo que os próximos tempos nos trarão. Já poucos arriscam prever como será a nossa vida daqui a 2 ou 3 anos, quanto mais daqui a 10… Mas a agenda mediática de alguns grupos de pressão consegue tirar desta incerteza proveitos que, mesmo para os mais liberais, são no mínimo indecorosos. Dou como exemplo as declarações de ontem do Presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal. Como alguns terão ouvido, foi sugerido durante a apresentação do relatório da 3ª revisão do Programa de Assistência Financeira a Portugal que os cortes nos 13º e 14º meses a funcionários do Estado e pensionistas poderão passar a ter de ser permanentes. No mesmo dia, esse responsável da CIP admitiu à imprensa que esses cortes podem ter de se estender aos privados, cito “em função de uma correta política salarial assente na produtividade” (fim de citação). A tese do senhor assenta na ideia de que os salários devem refletir os desajustamentos existentes – ou sejam, devem ser desvalorizados em função da produtividade das empresas – e os aumentos devem ser feitos em função não de índices de inflação, mas de ganhos de produtividade. Num primeiro momento, indignei-me seriamente. Sou trabalhador por conta de outrem e, na minha organização, a maior ou menor produtividade decorre de quem tem competências para definir os processos de produção, não de quem os executa. Ou seja, poderia no limite verificar-se que estaria nas mãos – ou, se quisermos ser mais exatos, na competência – de 5 ou 6 pessoas o facto de 300 serem ou não mais produtivas, independentemente dos seus esforços individuais. Cabe aqui lembrar que diversas multinacionais que atuam em Portugal pagam salários bem acima da média e, que se saiba, não se queixam de falta de produtividade; queixam-se bem mais da dificuldade de relacionamento com as instituições do Estado – a burocracia – com especial destaque para a justiça. Mas alterações neste pilar fundamental da Democracia, não conhecemos nenhuma… Um exemplo disto que falo é a Autoeuropa, que todos conhecem, cuja fábrica é uma das mais produtivas do Grupo VW. Mas depois de refletir algum tempo, confesso que me precipitei. E que até concordo com o senhor. Se pensarmos que mais de 90% das empresas em Portugal são Pequenas Empresas, a maior parte destas com menos de 9 trabalhadores, podemos perceber que será fácil aos empresários aumentar a produtividade das suas empresas. Perguntar-me-ão: mas como? Considerando a produtividade, em termos simplistas, como aquilo que se produz (trabalho) em função dos recursos empregues (salários pagos), temos pelo menos 2 caminhos possíveis: aumentar a produção pagando o mesmo, ou manter a produção pagando menos. E é aqui que reside a facilidade da coisa: quantas empresas conhecem em que o administrador ganha 3, 4 ou 5 vezes mais que os trabalhadores produtivos? Dir-me-ão que é ele que corre os riscos inerentes ao facto de ser empresário. Mas isso deve ser compensado em remunerações do capital, não em remunerações do trabalho como sucede entre nós. Quantas empresas conhecem que têm nos seus quadros de pessoal a mulher ou filhos do empresário, sem nunca ninguém os ter visto passar uma hora na empresa? Basta cortar nestas “gorduras”, como agora se chama ao desperdício, para aumentar, nalguns casos significativamente, a produtividade de muitas empresas. E assim pode ser feito o caminho para todos poderem ganhar significativamente melhor! É verdade que não percebo muito bem como se propõe a CIP convencer os empresários de que este é o caminho a seguir, mas eu acredito que pode ser por aí… Ou então estou apenas a armar-me em cínico, porque sei muito bem que o que o senhor da CIP queria era uma coisa completamente diferente…"

sábado, 26 de maio de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

Crónica de 21 de Março:


"Na onde de austeridade que percorre o país, há claramente um elo mais fraco: as regiões do interior. Como sabemos, são regiões em muitos casos demograficamente deprimidas, onde o aparelho empresarial é escasso, o que as lança numa espiral de atraso relativamente às regiões do Litoral que todos temos tentado combater mas cuja receita passa mais por tentativa e erro do que por metodologias testadas e comprovadas. No caso da Guarda – aqui visto como Concelho – os fatos são conhecidos: o último Censos indica-nos um decréscimo de população (se fosse hoje, tenho para mim que o retrato seria bastante pior), uma estrutura etária com prevalência de grupos mais velhos e qualificações abaixo da média. Apesar de nos últimos anos se ter tentado reverter esta tendência com recurso nomeadamente ao investimento público, a verdade é que essa opção tarda em dar frutos. Se a Guarda é hoje um Concelho bem equipado – é atravessado por 2 autoestradas, tem um parque escolar com boas condições, um novo Hospital que esperamos possa brevemente entrar em funcionamento, uma sala de espetáculos moderna e funcional, infraestruturas desportivas razoáveis, quer em número quer em qualidade, Tribunais com boas condições, para citar os mais óbvios – é cada vez maior a dificuldade em fixar cá novas famílias, em fixar cá jovens qualificados. As ofertas de emprego são muito escassas e as oportunidades de negócio para os mais empreendedores esbarram muitas vezes num ambiente hostil ao estabelecimento de novas empresas. A verdade é que olhando objetivamente, a Guarda pode dar todas as condições aos jovens para se cá fixarem: oferece boas condições de vida para jovens casais criarem os seus filhos, existe boa mobilidade, está a 3 horas de qualquer uma das capitais ibéricas – ou seja, no centro de um mercado com 50 milhões de habitantes – e aparentemente tem espaço para crescer. E digo aparentemente porque, nalguns casos, chegam-nos queixas de empresários que sentem enormes dificuldades em fazer cá crescer as suas empresas, nuns casos, ou simplesmente iniciar a sua atividade, noutros. É certo que existe um Parque Industrial, mas não existe um Parque de Negócios para empresas mais pequenas, do comércio ou dos Serviços. De resto, se calhar só eu acho que seria necessário implementar uma solução destas, já que nunca ouvi nada sobre o assunto à Associação Comercial ou ao Núcleo de Empresários, sempre mais preocupados em apresentar uma agenda própria do que em envolver-se em projetos comuns, a julgar pelo que temos visto nos últimos anos… Há espaços onde pode ser feito; há Instituições, como o Politécnico e as escolas secundárias e profissionais que têm todo o interesse em se envolver num projeto destes. Mas não vejo qualquer vontade de desenvolver um projeto destes. Da incubadora de empresas ouço falar há anos, sem que até hoje alguém tenha conseguido levar esse projeto a bom porto. E no entanto, são estruturas que por exemplo nos países do norte da europa existem há dezenas de anos e sobre os quais ainda hoje se tentam novas abordagens e formas de atuação, não ficando a olhar para os sucessos passados para justificar a sua existência. Volto assim a um tema que periodicamente aqui trago: a falta de estratégia. É necessário defini-la para o Concelho. Faz-nos falta, na hora de distribuir os poucos recursos que ainda vamos tendo. Faz falta ao poder, para poder fazer as escolhas acertadas e faz falta aos cidadãos para avaliarem o poder e lhe reconhecerem obra. Só poderá não fazer falta aqueles para quem a falta de memória dos eleitores é o maior ativo na hora de serem avaliados…"

terça-feira, 22 de maio de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

Em 7 de Março, a crónica foi:

"As recentes obras de requalificação de algumas das ruas do centro da nossa cidade têm aspetos que devem, em minha opinião, ser revistos ou melhorados, sob pena de virem a causar prejuízos pessoais que implicariam responsabilidades para a Autarquia. 
Esta intervenção tem vários aspetos muito positivos para a mobilidade e a preservação estética da zona mais antiga da cidade. O fato de se estarem a suprimir os degraus nos extremos das passagens de peões – aquilo que geralmente designamos por passadeiras – para permitir mais facilmente o atravessamento das vias por quem empurre um carrinho de bebé ou mesmo quem se desloque em cadeira de rodas é um claro exemplo daquilo que as cidades podem e devem fazer para permitir aos seus cidadãos usufruir dos espaços a pé, ao invés de quase os obrigar a andar de carro no centro da cidade. 
Também o alargamento dos passeios, como o que se verificou por exemplo à porta da Igreja da Misericórdia vai nesse sentido e é sem qualquer duvida uma mudança muito positiva. 
Por outro lado, o uso do granito como material de eleição dá uma imagem coerente à intervenção e reforça a nossa identidade de cidade de montanha, de região onde o granito domina, a par com a floresta – ou pelo menos com o que dela resta – a paisagem. 
Até aqui, tudo aspetos positivos, mudanças que contribuem para uma melhor imagem da cidade. 
Já no que toca à supressão de passeios – como a que ocorreu por exemplo na rua dr. Lopo de Carvalho – esta levanta-me algumas dúvidas. Não sendo à partida contra a supressão, parece-me que ela deveria ocorrer num contexto de forte condicionamento do tráfego automóvel, o que não acontece na rua que citei a título de exemplo. Trata-se de uma rua com 2 sentidos de trânsito, que é para além disso quase o único acesso ao lado ocidental da cidade, o que faz com que tenha bastante trânsito, pelo menos durante o dia. E o que verifico nas minhas passagens diárias por aquela rua – a pé – é que o fato de não estar claramente delimitada a via de circulação automóvel e a via reservada aos peões, é causa de muita insegurança. Porque a rua é relativamente estreita e os automobilistas tendem a encostar-se mais às casas, deixando ainda menos espaço para os peões que aquele que os exíguos passeios suprimidos reservavam. Para não falar dos menos escrupulosos em estacionar bem encostados ás paredes das casas da rua, obrigando os peões a passar quase pelo meio da estrada. De resto, no limite pode mesmo aplicar-se a disposição do código da estrada que obriga os condutores a manter-se o mais à direita possível da via de circulação, inviabilizando a utilização da rua pelos peões – algo que me parece completamente contrário à – pelo menos aparente – filosofia da intervenção! 
O fato de não haver uma separação física entre a via de circulação automóvel e a via de circulação dos peões propicia uma utilização da via por parte dos automóveis – neste caso o elemento mais forte – que pode vir a ser causa de alguns acidentes. E portanto, mesmo não havendo uma separação tão marcada como a que é feita com um passeio elevado em relação à via, penso que deve ser estudada uma forma de delimitar fisicamente área reservada aos peões. 
Outra das questões que deve ser revista é a forma como estão a ser assinaladas as passagens de peões. As anteriores eram constituídas por paralelepípedos cinzentos e brancos – cores contrastantes que permitiam ao condutor uma identificação imediata do ponto de travessia. Ainda recorrendo-me da mesma rua como exemplo, as passadeiras que lá foram construídas são integralmente cinzentas, em tons ligeiramente diferentes, mas cujo contraste não permite uma identificação imediata de uma travessia para peões. Duas delas têm pelo meio caixas de acesso às redes técnicas subterrâneas, pelo que dificilmente alguém que não conheça a cidade interpretará aquelas áreas como zonas de atravessamento de peões. Obviamente deverá ainda ser colocada sinalização vertical; mas eram muito mais visíveis as “passadeiras” anteriores do que as novas que foram instaladas. E sabendo-se que quantos mais elementos de prevenção do erro tivermos mais seguro se torna o espaço, penso que com as atuais passadeiras se desperdiçam recursos, pois a sua forma de construção não permite identificar imediatamente a sua função. 
Deixo pois aqui, aos microfones da rádio, um apelo à autarquia para que reveja estes aspetos e procure uma solução que sirva os objetivos de melhorar a mobilidade no centro da cidade sem fazer qualquer cedência à preservação da integridade física dos peões."

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

A crónica de 22 de Fevereiro:

"A Merkozylândia – outrora conhecida como Europa – vive dias conturbados. Os ténues laços de solidariedade entre os Estados têm sido esticados até ao seu limite físico e ameaçam quebrar a qualquer momento. Se é nos momentos difíceis que vemos quem são os nossos amigos, temos agora uma boa oportunidade de os identificar. Se conseguirmos encontrar algum…

A Europa foi uma das mais extraordinárias construções do sec. XX, tendo trazido paz e prosperidade a uma região do globo que ao longo dos últimos séculos tinha sido palco constante de guerras e todo o tipo de manobras hegemónicas. A evolução do seu conceito representou passos de gigante na forma como encaramos a geopolítica nos últimos 20 anos do sec. XX, mas eis-nos agora chegados a um novo desafio: saber até que ponto estamos dispostos a integrar essa construção política. 
Considero indispensável que, a muito curto prazo, logo que passe a borrasca da crise financeira que a Europa atravessa, os governos dos países da UE discutam interna e externamente até onde estão dispostos a ir neste projeto. Porque se há coisa que percebemos nos tempos recentes, é que estamos numa situação que nos tem deixado vulneráveis face à força que os “mercados” – algo que apesar de difícil de perceber e identificar, está hoje omnipresente na forma como se faz geopolítica – têm vindo a ganhar num mundo orientado para o consumo como forma de realização de objetivos coletivos e individuais. 
Já todos percebemos que não podemos estar dentro quando tudo corre bem e pormo-nos de fora quando as coisas correm mal; e que não podemos um dia querer manter intacta a nossa soberania e no dia seguinte querer interferir na soberania do país ao lado. Se o caminho passa por uma federação de Estados ou por qualquer outra forma de Governo, francamente não estou certo. Mas sei que como estamos não resistiremos muito tempo. 
Se por um lado, o nosso futuro passa inequivocamente pelas nossas relações com os demais países europeus, tal não significa que tenhamos forçosamente de pertencer à União Europeia: temos exemplos de outros pequenos Estados europeus que, mesmo fora da EU souberam conquistar um lugar de relevo no panorama internacional e asseguram aos seus povos padrões de vida e civilização de referência. 
A nossa saída da EU exigiria um amplo consenso nacional e coragem por parte das lideranças políticas – 2 desideratos que atualmente vejo muito difíceis de alcançar. Mas quando se discute um tema desta natureza e com a importância que este tem, todas as hipóteses devem ser colocadas sobre a mesa e debatidas sem qualquer tipo de preconceito. 
A participação dos cidadãos é fundamental e se for por um objetivo que as mobilize, elas responderão certamente. Veja-se o que tem acontecido desde Novembro com os debates promovidos pela Rádio Altitude e o TMG: tratando-se de temas que preocupam os cidadãos e que eles identificam como importantes para as suas vidas, têm respondido aos apelos à participação. Quem tem assistido aos debates sabe bem do que falo: gente interessada e interessante, com coisas importantes para dizer, que quer participar ativamente na construção da sociedade onde vive e que não se limita a ficar a ver os outros fazer ou decidir sobre assuntos que são de todos. 
E mesmo quem ocupa lugares de relevo na política regional – ou pelo menos aqueles que se interessam pelo que pensam os munícipes – reconhece a importância e vitalidade destes encontros. Os outros, terão na colheita os frutos do que semearam. Pelo menos, assim espero… "

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

A crónica em 7 de Fevereiro na Altitude:


"Austeridade! Palavra que recentemente passámos a usar como desculpa para aquilo que há 3 ou 4 anos seria absolutamente impensável. Tem origem no latim austeritāte e significa “seriedade”; em Economia, define-se como uma política governamental que procura reduzir a despesa pública. 
Todavia, os manuais de Economia também nos dizem que medidas de austeridade devem ser acompanhadas de outras que estimulem o crescimento económico, sob pena de se cair ou, como no caso português se prolongar, o período recessivo. E se o Governo foi lesto a tomar medidas de austeridade, tem sido bem mais brando a estimular a economia… 
O Sr. Primeiro-Ministro recordou-nos o caricato que foi, no ano passado, termos os membros da troika a trabalhar enquanto os portugueses tiveram a tal tolerância, classificando a situação com o termo “comportamentos preguiçosos”; ora, em primeiro lugar, mesmo no ano passado houve muitos portugueses a trabalhar no dia de Carnaval, pelo que o cumprimento das suas obrigações de trabalho não foi um exclusivo dessa equipa; além de que, aposto, poucos ou nenhum terão ganho nesse dia qualquer coisa parecida com o que ganharam os rapazes da troika que, coitados, tiveram de prescindir do Carnaval. Depois, provavelmente não faz parte das tradições dos países do norte da Europa – de onde são originários os técnicos que vieram a Portugal nessa altura – a comemoração do Carnaval, razão pela qual eles não o celebrariam de qualquer das formas; da mesma maneira que, de resto, nós não celebramos o solstício de Verão, que é feriado nacional por exemplo na Suécia. E por fim, diria que caricato é apresentar como salvadora a ideia peregrina de vender pastéis de Nata no mercado externo – algo que se faz há dezenas de anos – e não cumprir algumas tradições que, como o Primeiro-Ministro insiste em não perceber, são parte da identidade de um Povo. 
De resto, o estímulo à Economia tem-se feito essencialmente com este tipo de medidas pífias, como a dos pastéis de nata, os cortes dos períodos de descanso do trabalho ou chamando “piegas” aos portugueses que se queixam das dificuldades dos dias que vivemos. Sendo certo que a austeridade tem sido implementada em clima de relativa paz social, diria que neste particular o primeiro-ministro tem estado, dia após dia, a esticar a corda. E, pelo que já se percebeu, irá tão longe quanto todos o deixarmos ir… 
Se há alguns anos atrás, o nosso ideal eram os países nórdicos, com uma população qualificada, empresas criadoras de valor e condições de vida oferecidas às populações, hoje o nosso ideal parece aproximar-se cada vez mais aos países orientais, onde trabalhar cada vez mais por menos retribuição é a forma de manter a população ocupada, dependente das elites e rendida pela necessidade de assegurar o sustento da família. 
A austeridade está assim a esmagar a capacidade de os portugueses se indignarem; mas este movimento pode funcionar como uma mola, que vai comprimindo mas que a partir de determinado ponto terá de libertar toda a tensão acumulada, num movimento de imprevisíveis consequências. 
Assim, se nos próximos 2 ou 3 meses não forem apresentadas medidas concretas de apoio ao crescimento económico, seremos levados a concluir que temos um Governo ao serviço dos grandes grupos de pressão, que se aproveitam do Estado para realizar negócios em condições leoninas, que todos suportamos, sem que os sacrifícios que os portugueses estão a fazer venham a ter resultados a prazo. 
Já aqui disse que sou da opinião que devemos fazer todos os possíveis por honrar os nossos compromissos com as Entidades que prestaram o auxílio financeiro. Mas isso não pode servir de desculpa para manter o status quo de um restrito grupo de privilegiados, ao passo que o grosso da população vê as suas condições de vida agravarem-se de dia para dia. O aumento de 450% nos incumprimentos de crédito à habitação durante o ano passado são um exemplo desse agravamento e um sinal preocupante. 
Espero pois, que a pressão sobre a mola abrande…"

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Crónica Diária - Rádio Alttude

Crónica de 24 de Janeiro:

"Os constrangimentos a que as medidas de austeridade em curso no nosso país nos obrigam podem e devem servir para aprendermos a viver de forma diferente, alterando alguns hábitos por forma a gastarmos mais criteriosamente os recursos de que – ainda – dispomos.
Um dos hábitos a que me refiro é o de passarmos a preocupar-nos mais com a origem dos bens que consumimos. E a privilegiar nas nossas compras tudo o que seja local.
Estamos obviamente limitados a grupos de produtos muito restritos, mas ainda assim penso francamente que este princípio aplicado por grande número de consumidores pode fazer alguma diferença. Nos restantes produtos, cuja origem tem de ser forçosamente exterior à nossa região, também devemos privilegiar a compra local, ou seja, adquiri-los a comerciantes da nossa região. Numa altura de recessão como a que atravessamos, atitudes como estas podem fazer a diferença num mercado de reduzida dimensão e cujas fragilidades são bem conhecidas de todos.
Sabendo que previsivelmente em 2013 a Balança Comercial portuguesa será, pela primeira vez em muitos anos, favorável a Portugal, é hora de nos preocuparmos com a nossa região e pensarmos nela, em termos de mercado, da mesma forma que temos pensado em Portugal. Existem por cá bastantes produtos com potencial de mercado; alguns serviços transacionáveis que poderemos aproveitar e que, no conjunto, podem contribuir fortemente para a consolidação do nosso mercado regional.
Bem sei que uma campanha como esta deveria ser feita, em primeiro lugar, pelos empresários ou, pelo menos, pelas estruturas que os representam. Mas essas, aparentemente, estão mais preocupadas em gerir as suas atividades subsidiadas pelo Estado; ou então, acham mesmo que este não é um tema que mereça grande atenção, ao contrário de mim, obviamente.
Uma segunda nota para comentar a mais recente boutade de Cavaco Silva, quando se lamentou quanto aos seus rendimentos não serem suficientes para as despesas que tem. É certo que veio já esclarecer que não queria com as suas palavras pôr-se de fora daqueles que terão de fazer sacrifícios. E com este esclarecimento, demonstrou claramente uma de duas coisas: ou não percebeu que o que indignou as pessoas foi alguém que recebe mais do que a larga maioria dos portugueses vir a público queixar-se dos seus rendimentos; ou percebeu isso claramente mas resolveu ignorar o coro de protestos que se tem feito ouvir na imprensa e nas redes sociais, porque a sua pretensa superioridade moral deve ser ser, no seu entendimento, suficiente para afastar qualquer pessoa que ouse criticá-lo.
O que é triste é que Portugal tem um Presidente da República tão cheio de si que, numa altura difícil, se acha um exemplo para os seus concidadãos. Logo ele, que toda a vida foi funcionário do Estado, por via direta ou indireta. E que, independentemente dos seus méritos, viveu nos últimos 20 anos rodeados de privilégios a que poucos podem ter acesso! Não perceber isto, é não perceber o país em que vive: um país em que o salário mínimo não chega a 500 Euros e em que mais do que um em cada dez trabalhadores não encontra emprego!
Voltando ao início da minha crónica, deixo aqui um apelo aos ouvintes: comprem local. Vamos tornar a nossa economia mais resistente às dificuldades; e para este desígnio, todos não seremos muitos. E devemos perceber que não podemos contar com os de fora para nos desenvolvermos; temos de ser nós a valer-nos uns aos outros, estimulando o sentido de comunidade e mostrando que se cá continuamos, não é por mera teimosia. É porque acreditamos em nós!"

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

A crónica de 11 de Janeiro, a primeira de 2012 foi:


"Quando iniciamos um novo ano, fazemo-lo sempre com a esperança que seja melhor que o anterior. Pela parte que me toca, este ano não é assim. Encaro com preocupação o que aí vem. E como adivinho um ano difícil, decidi desde já que tudo vou fazer para que valha a pena. Para que, no fim do ano, possa olhar para trás e perceber a realização de algo importante, que um ano é muito tempo para se desperdiçar! Quando os recursos são escassos – ou pelo menos, mais escassos do que o habitual – é importante planear para os aproveitar o melhor possível, para não perdermos de vista os nossos objectivos e não nos dispersarmos com entusiasmos momentâneos. É isto que fazem as grandes organizações para responder aos momentos difíceis que têm de atravessar; e é isto que a Guarda tem de fazer: concentrar esforços, energia e recursos em objectivos verdadeiramente estratégicos. Quando falo da Guarda, falo obviamente de todos nós, que cá moramos e cá trabalhamos; que nos esforçamos todos os dias por construir uma cidade melhor. Mas obviamente cabe às instituições que gerem a cidade criar o consenso necessário para que todos possam dar o seu contributo. Na minha opinião, existem 3 vectores fundamentais de atuação para que a Guarda possa nos próximos anos desenvolver-se por forma a criar condições quer para os que cá vivem e fazem negócios, quer para aqueles que necessariamente terá de cativar a virem para cá. O primeiro é a imagem. É necessária uma política de imagem sobre a qual assente toda a comunicação. Quer passe pela neve, pelo frio, pela montanha, pelo arroz doce ou por qualquer outro atributo, é urgente uma definição e passar a trabalhar em cima dela. A comunicação de eventos que atingiram já alguma projeção nacional – o julgamento do galo, nos eventos de rua, a programação do TMG na área cultural ou a Invernal de BTT no Desporto são alguns exemplos de atrações que só terão a beneficiar de um denominador comum em termos de imagem! O segundo vetor é o ambiente para os negócios. Há falta de iniciativa privada na Guarda. O que abre as portas aos tentáculos do poder político, que a tudo chega. É necessário inverter esta lógica e a melhor forma é permitir aos empresários que façam aquilo que sabem fazer – negócios – num ambiente de transparência. Regras claras, bem definidas e prazos razoáveis para a apreciação de pedidos é tudo quanto é preciso. Não se podem esperar meses por uma licença para realizar obras; nem semanas para pedidos que são renovados anos e anos a fio. Criem-se as regras, divulguem-se e façam-se aplicar em prazos curtos e que sejam sempre, mas sempre cumpridos. Dêem-se sinais claros de que na Guarda, o cidadão ou o empresário que cá queira investir, sabe exatamente com o que conta. Porque hoje não é assim e a falta de estabilidade, a incerteza, é algo que afasta quem quer investir. Havendo investimento haverá a criação de postos de trabalho e de riqueza, que é do que todos precisamos para uma cidade melhor. O terceiro vetor é iberização da cidade; embora este possa em muito cruzar-se com o primeiro que enunciei, pela sua importância estratégica merece o devido relevo. Neste ponto devo dizer que, para fazer justiça, têm sido dados passos importantes na afirmação da Guarda como Hub ibérico ao nível económico, mas também ao nível cultural. É necessário que esse trabalho seja mais bem divulgado e explicado aos cidadãos e que se continue a apostar nele como forma de afirmação da região numa realidade cada vez mais aberta a novos conceitos territoriais. Se somos a cidade portuguesa mais central da península, é importante capitalizar esse activo. E isso faz-se transformando esse atributo em oportunidades de negócios e em ações que melhorem as condições de vida da sua população. A aposta deve pois ser em projetos com impacto nestes 3 vectores. Tudo o resto, ainda que sejam oportunidades, apenas servirá para desviar recursos daquilo que, no futuro, poderá diferenciar a Guarda das outras cidades do País. Está pois na hora de dizer, como no jogo: Cavalheiros, façam as vossas apostas!"

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

Continuando a reposição, a crónica em 14 de Dezembro foi: 

"Temos vivido, ao longo deste ano, a ouvir falar de uma crise mais grave que as outras que temos vivido. Uma crise que começou nos países periféricos, passou a afectar toda a Europa e ameaça actualmente quase todo o mundo; não só o mundo ocidental, democrático e capitalista, mas também aqueles países que, apesar de ideologicamente marginais, acabaram por de alguma forma ter de se adaptar à pulsão capitalista que hoje é omnipresente. Uma crise quase bíblica, porque para além das suas proporções globais, nos vem castigar pelos nossos pecados de consumidores descontrolados. E uma crise bíblica que, sendo um castigo que merecemos, é a desculpa perfeita para os cortes de direitos e aumentos de impostos a que temos assistido. E que nos têm sido impostos como as únicas soluções possíveis no momento para sairmos da crise. Só que, olhando para o que se passa um pouco por todo o mundo, não podemos deixar de estranhar que países com hábitos e sistemas tão diferentes como Portugal, Irlanda, Argentina ou Paquistão estejam hoje entre os que têm maior risco de incumprimento internacional Creio, portanto, que os cortes salariais e de direitos, bem como os sucessivos aumentos de impostos – a tal solução única – resultam apenas de falta de capacidade para encontrar as soluções realmente estruturais para as nossas fragilidades enquanto economia aberta. Uma falta de capacidade que não é exclusiva deste Governo, obviamente, mas que nele tem continuação. E que assenta em 3 grandes mitos, que se vão repetindo de boca em boca, como aquelas mentiras que tanto serem repetidas acabam por se tornar verdades… O 1º mito é o de que vivemos acima das nossas possibilidades; e é falso, na medida em que é o Estado, principalmente pela via do desperdício, quem mais destrói valor no nosso país, em negócios ruinosos como os estádios do Euro ou as SCUT; não discuto obviamente a utilidade dos equipamentos, mas antes a forma de financiamento encontrada, que deixa o Estado à mercê de uma série de predadores que à boca grande enaltecem as virtudes do sector privado e à boca pequena vivem pendurados em negócios com o Estado. Com a carga de impostos que os portugueses já pagavam antes dos recentes agravamentos dever-se-ia ter gasto mais criteriosamente e, agora que chegou a factura, são os do costume que vão ter de a pagar… O 2º mito é o da falta de produtividade dos trabalhadores; outra incoerência, na medida em que sabemos que a diáspora portuguesa é reconhecida pela sua capacidade de trabalho nas comunidades onde está inserida; e que as multinacionais que se instalam em Portugal não reconhecem qualquer fraqueza à nossa mão-de-obra, quando comparada com a de países economicamente mais fortes que nós, nomeadamente Alemanha e França. Por quê? Por que o que trazem para Portugal são métodos de planeamento e execução de tarefas que os trabalhadores aplicam com o mesmo empenho e profissionalismo que os seus congéneres dos países que citei. O que falha é pois a cultura empresarial, que se permite o esbanjamento de recursos com base nos baixos salários praticados em Portugal; e tem falhado também o estímulo a maior eficiência nas organizações. Assistimos por outro lado a enormes fossos na retribuição de patrões e empregados, não se separando rendimentos do trabalho de rendimentos de capital, misturando-os muitas vezes como se a caixa da empresa fosse a carteira do empresário… Por fim, o mito de que os funcionários públicos vivem rodeados de privilégios. E aqui, metem-se no mesmo saco todos aqueles que, directa ou indirectamente trabalham para o Estado. Que, sendo muitos, têm situações muito distintas… Algumas que deviam até envergonhar quer governantes quer as chefias que delas se servem para manter o seu poderzinho. É certo que o estado já foi um empregador aliciante. Hoje, só o será em alguns – poucos – sectores ou regiões do país, como é o caso da Guarda, onde o aparelho produtivo é ainda escasso. Mas desenganem-se aqueles que pensam que hoje um emprego no sector público é garantidamente bom. Além de desmotivante por estar sempre na linha da frente dos cortes de direitos, começa a carregar um anátema que desmobiliza os melhores e mais empenhados. E um Estado sem trabalhadores de qualidade é um Estado que cada vez gastará mais para produzir menos, num ciclo a que é difícil escapar… E que redundará em novas crises no futuro."

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

Continuando as reposições, dia 30 de Novembro foi assim:

"Nos próximos dias, muitos de nós realizarão uma fantasia: viajar no tempo! Com a introdução de portagens nas auto-estradas A23 e A25 e com a redução do rendimento disponível das famílias que tem marcado a actuação do actual Governo, pela via da nacionalização de uma parte crescente dos rendimentos do trabalho, muitos de nós passaremos a deslocar-nos de forma idêntica àquela em que o fazíamos há cerca de 30 anos: por estradas nacionais, passando pelo centro de todas as pequenas localidades e a velocidades médias incompatíveis com as necessidades actuais. Tudo isto contribuirá, na minha opinião, para o afastamento do interior das regiões mais desenvolvidas, quer em termos de condições de vida, quer de ambiente propício para negócios, quer mesmo no sentido físico do termo. Por isso, fiquei um pouco perdido ao ter tomado conhecimento do apelo do Sr. Presidente da República para a criação de incentivos à fixação de populações nas zonas rurais, no mesmo dia em que promulgou o Decreto-Lei que determina a introdução de portagens nas auto-estradas do interior. Mesmo estando já habituados a estes anacronismos de Cavaco Silva, fico sem perceber se são acidentais ou propositados. Apesar de o Presidente da República dispor dos meios para ter uma palavra a dizer em questões como esta – nomeadamente o veto político – optou por não o usar neste caso concreto. De resto, numa atitude mais do que previsível, como as restantes que têm marcado o seu mandato. E mostrando que, com Cavaco Silva, a Presidência da República se fica por um verbo de encher, com um actor que fala, fala, mas ninguém o vê a fazer nada! Esta medida em particular será o maior e mais irresponsável ataque do poder central ao interior menos desenvolvido de um Portugal que será cada vez mais assimétrico, perante o olhar complacente mesmo daqueles que elegemos para representar os nossos interesses. A austeridade será pois, de igual forma, assimétrica, por atingir cegamente regiões com índices de poder de compra muito distintos. E esta cegueira conduzirá, em minha opinião, a uma situação pior que a que vivemos hoje, porque não serão feitas algumas correcções que se impõem. Isso mesmo avisou Joseph Stiglitz na semana passada ao povo espanhol, numa conferência em La Coruña. O nobel e ex administrador do Banco Mundial, referindo-se às políticas de austeridade que instituições internacionais como a União Europeia e o FMI têm imposto àqueles a quem prestam auxílio, disse claramente que a austeridade é a receita para o suicídio. Que sem estímulos ao investimento e à criação de emprego, pela via da fiscalidade, e ajustamentos à despesa, as recessões demorarão muitos anos a ser ultrapassadas, massacrando os povos a ela sujeitos. Sabendo que em qualquer situação, os estímulos ao investimento e à criação de emprego têm conduzido a situaçoes favoráveis do ponto de vista do dinamismo das economias – veja-se o exemplo das economias dos países do Norte da Europa, que o souberam fazer melhor do que ninguém pela flexibilidade que a sua escala lhes permite – essa deveria também ser uma receita aplicada entre nós. Alguns membros do Governo têm ainda um capital de credibilidade bastante elevado, entre os quais o Ministro das Finanças. Por isso, tenho alguma esperança que este possa vir a ser um caminho que iniciemos, apesar de os sinais de que dispomos até agora nos indicarem o contrário De qualquer das formas, alguns de nós continuarão teimosamente a viver no interior, a tentar pelos meios ao seu alcance que as desigualdades se atenuem. Uns porque gostam da sua terra, outros porque gostam da vida que lhes é proporcionada. Por tudo isto, nós que vivemos no interior, esperávamos mais dos nossos políticos; que pelo menos percebessem que um interior mais competitivo contribuirá para um país mais forte economicamente. E que um interior por eles afastado, afastar-se-á também na direcção oposta, tal como já fez anteriormente em contextos de grande dificuldade. Lembram-se dos contrabandistas…?"

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Crónica Diária - Rádio Altitude

Já devo aqui ao blogue algumas crónicas que li aos microfones da Rádio Altitude, que teve uma vez mais a amabilidade de me renovar o convite para quinzenalmente estar naquele espaço de intervenção cívica.
Aqui fica a primeira da temporada; as outras, seguem dentro de momentos...

"Vivemos dias agitados. O vento forte que se tem feito sentir deixa-nos apreensivos. Coloca-nos questões. Coloca-nos perante os nossos medos.
Não me refiro ao estado do tempo, no sentido meteorológico. Refiro-me ao verdadeiro furacão que têm sido as notícias dos últimos meses.
Aquilo que ainda há um ano nos parecia pessimismo, é hoje a realidade; e o pessimismo de hoje mostra-nos algo com que nem sequer ousámos alguma vez sonhar!
É pois o tempo de tomarmos atitudes colectivas: de percebermos onde o individualismo e a falta de um projecto comum nos vão conduzir: a sermos marionetas nas mãos de um conjunto de agiotas sem rosto que tudo podem e tudo fazem a coberto do livre funcionamento dos mercados.
Começa a ser preocupante assistir, como temos assistido na Grécia e, mais recentemente, em Itália, a nomeações de Governos que não resultam directamente da vontade expressa dos povos. Como se a Democracia também pudesse ser posta em stand-by para “acalmar os mercados” – um expressão que pretende representar um objectivo que tudo justifica.
Mas há algo que essas entidades sabem e que as assusta: a força que representam os cidadãos quando unidos em torno de um objectivo comum. Por isso os diversos agentes políticos tudo têm feito para dividir as pessoas: os professores e os outros; os juízes e os outros; ou os funcionários públicos e os outros. Deixando sempre de fora alguns que ficam assim numa lógica de contrapeso a medidas duras e que, com o seu silêncio legitimam as injustiças que se cometem por incapacidade de tomar as medidas verdadeiramente estratégicas e cujos efeitos a prazo permitiriam corrigir muitos dos desequilíbrios que hoje nos afligem.
Como já havia aqui referido em crónica anterior, como podemos contar com solidariedade europeia se nem à escala do nosso (pequeno) país podemos contar com essa solidariedade? Veja-se o exemplo da Câmara de Barcelos, cujo Presidente anunciou há semanas que era sua intenção proceder ao pagamento de Subsídios de Férias e Natal em 2012 porque a sua Câmara tinha folga orçamental para tal. Sem a noção de que a Câmara de Barcelos não é a sua quinta, onde põe e dispõe; sem a elevação de perceber que essa suposta folga orçamental poderia ajudar no momento difícil que atravessamos. Que país é este onde uns quantos insistem em manter privilégios, mesmo que olhando para o lado se vejam dificuldades aflitivas? Se os mais desfavorecidos não podem contar com o emprenho de Barcelos, deverão confiar no empenho de Bruxelas?
Esta união em torno do objectivo comum de mantermos a nossa autonomia política é exigente em termos de cidadania. Mais do que nunca, é preciso estar atento ao que nos rodeia, reflectir sobre ele e conhecer a história e as lições que ela nos transmite.
Em momentos de aflição, os povos que depositaram a sua confiança em líderes messiânicos, em salvadores omniscientes, acabaram por dar os piores passos, porque confiaram inteiramente neles e deixaram de confiar em si próprios. E por muito iluminadas que sejam algumas consciências, não podem substituir, em nenhum momento, um conjunto alargado de consciências com diversas vivências, tendências e pontos de vista que são afinal aquilo que caracteriza a diversidade da pessoa humana e um dos pilares sobre os quais assenta a Democracia: o de que a minha opinião de Homem simples tem o mesmo valor que a opinião de qualquer Homem que se considere ou mesmo seja por outros considerado um iluminado.
Mantenhamo-nos pois atentos e sem medo de exprimir as nossas opiniões, pois só elas poderão distinguir os fortes dos fracos. E num momento difícil como o que atravessamos, Portugal – que somos nós todos – precisa muito dos fortes para seguir em frente."


Crónica de 16 de Novembro de 2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Crónica Diária - Rádio Altitude

A minha crónica do passado dia 8 de Junho:

"Os resultados das eleições do passado Domingo deixaram clara a vontade da maioria dos portugueses de uma mudança política. Num país que nos últimos anos tem votado maioritariamente à esquerda, só assim se explica a inequívoca e expressiva maioria que a direita obteve.
Mas na minha opinião, o que os portugueses sinalizaram com esta votação expressiva na direita, não se resume à vontade de uma mudança de actores. Vai mais longe. As pessoas estão cansadas desta forma de fazer política. De perceber que uma parte significativa dos políticos age na maior parte das vezes mais por interesse pessoal do que no interesse daqueles que representa, que lhe confiaram o seu voto. E isto cria um sentimento de frustração que afasta as pessoas da política. Assim se explica, em parte, a elevada abstenção – mais de 40% - que de novo se verificou nestas lesgislativas. A outra parte da explicação reside, como já aqui tenho referido, no puro desinteresse das pessoas na participação cívica. Que se reflecte neste e noutros domínios.
Estas eleições e o seu resultado devem fazer-nos reflectir. Pessoalmente, ao ter visto um Governo Socialista tomar as medidas que tomou – adiamento da idade da reforma, redução de prazo para subsídio de desemprego, para citar as mais óbvias, só posso concluir que o Estado Social que ambicionávamos e tanto nos prometeram não passou afinal de uma miragem, pelo simples motivo de que não conseguimos sustentá-lo. Por muito que nos digam que devíamos ser capazes; que temos potencial; as evidências, ao longo dos últimos 15 anos, desmentem-no. Reconhecer isto a tempo é um passo na preservação de algum desse Estado Social.
Voltando aos resultados das eleições, impõe-se no nosso sistema político uma mudança. Têm de ser dados à sociedade sinais de que as coisas mudarão para todos. O actual sistema de nomeações políticas deve ser imediata e profundamente revisto. As nomeações políticas não podem continuar disfarçadas de contratações. O nomeado, convidado, indigitado, ou como queiram chamar-lhe, tem de ter o decoro de no final do ciclo, independentemente da sua duração, saber reconhecer que também a sua nomeação, o seu convite ou indigitação chegou ao fim do prazo de validade.
Atitudes de quem faz da política emprego diminuem quem as toma. E diminuem os cargos que ocupam. Sou a favor que os cargos de responsabilidade sejam remunerados de acordo com as exigências que impõem. Mas devem criar-se mecanismos que evitem que tais cargos se tornem pasto para políticos sem outro currículo que não seja a militância partidária.
Os próximos 3 anos vão ser muito duros, para o Governo e para nós – cidadãos. Vão ser especialmente duros para os mais desprotegidos – desempregados e pessoas com poucos recursos económicos. Por isso, espero do próximo Governo uma especial atenção às questões sociais, por forma a preservar em todos os portugueses a dignidade.
Penso que os portugueses serão generosos ao ponto de enfrentarem sem dramas as dificuldades que se avizinham. Assim percebam nos seus dirigentes a vontade de ultrapassar as dificuldades temporárias com abnegação, em nome do futuro do país.
Na fase em que estamos, os fortes marcarão a história. Os fracos, esses devem sair quanto antes do caminho… "

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Final de Campanha

Chegamos ao fim de mais uma campanha eleitoral com a sensação de que são mais as coisas que não conhecemos do que aquelas que efectivamente percebemos, quando se trata das diferentes propostas que os pretendentes a Primeiro-Ministro apresentam...
Mas nesta fase, consegue-se já antecipar o que acontecerá a partir de Domingo à noite: PSD e CDS apresentar-se-ão ao Presidente da República com uma solução conjunta de Governo. Só isso explica o facto de ontem Passos Coelho ter sublinhado que não incluirá o PS num futuro Governo que chefie. Que não incluísse Sócrates, como anunciou no início da campanha, é absolutamente compreensível. Mas excluir o PS sem ter já um acordo com o CDS deixá-lo-ia refém deste último; a não ser que a "solução final" já estivesse alinhavado, como creio ser o caso. Apenas mantêm o acordo em segredo por compreensível calculismo eleitoral, evitando com isso uma concentração de votos da esquerda no PS.
Por cá, também foi interessante assistir ao conjunto de iniciativas em que os candidatos participaram durante a campanha. E foi curioso notar as diferenças de estilo entre os vários intervenientes na contenda... De estilo e de experiência, embora esta às vezes não chegue para se disfarçar suficientemente o primeiro.
Agora é connosco: no Domingo, lá estaremos para cumprir com a nossa parte.

PS: o momento hilariante da campanha, a nível local, foi ver Alves Ambrósio ao lado de Paulo Portas! As voltas que a vida dá... :)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Crónica Diária - Rádio Altitude

crA da quarta-feira passada:




Com eleições legislativas à porta, temos o habitual corrupio dos políticos desdobrando-se em acções de campanha, preocupados com o contacto com o público, em conhecer os problemas do Distrito, os projectos em curso, e tudo o que demais pressentem que poderá fazer a diferença relativamente aos adversários.

Curiosamente, foi divulgado na semana passada que o gabinete de atendimento que o Governo Civil disponibiliza aos deputados em funções na Assembleia da República eleitos pelo Distrito não foi utilizado durante a última legislatura. É pois legítima a sensação de que os eleitos – ou pelo menos os que o têm sido até agora – só se preocupam em contactar as pessoas e instituições para lhes pedir o seu voto. Depois disso, pelos vistos, não sentem grande necessidade de vir continuar a contactar, conhecer projectos etc.

Por tudo isto, penso que esta é a altura ideal para prestar contas. É certo que, dos candidatos com maior probabilidade de serem eleitos, nem todos foram eleitos pela Guarda na anterior legislatura. Mas mesmo esses, têm a obrigação de prestar contas pelo trabalho dos seus antecessores. Pelos resultados alcançados – ou mesmo pela sua ausência.

Esta é a minha última crónica antes das eleições de onde sairá um novo Governo, que terá necessariamente de quebrar aquilo que vem sendo prática nos últimos 20 anos: um Governo de um só Partido. Será um Governo que terá pela frente imensas dificuldades; a primeira será logo o seu nascimento, a que se seguirão outras que derivam da situação financeira do País e dos compromissos que foi necessário assumir para salvaguardar a solvabilidade do Estado. Por isso, não quero deixar passar a oportunidade de lembrar aqui que, pessoalmente, considero que foi recentemente feito à Guarda um acto de traição que muito nos irá penalizar no futuro. Refiro-me, obviamente, à introdução de portagens nas A23 e A25. Muitos terão esquecido o tema por a introdução do pagamento ter sido adiada. Mas convém aqui lembrar que a decisão está tomada e que quer o PS quer o PSD – os 2 partidos com maior probabilidade de figurar no próximo Governo – têm a intenção de a levar avante. Com a introdução de portagens em vias construídas sobre outras que lá existiam, ficamos na prática sem alternativas para as nossas deslocações inter-regionais. E sendo a nossa localização geográfica uma das bases da aposta numa especialização regional com base na logística, ficam comprometidos os esforços e investimentos nessa especialização porque o negócio foi onerado por custos de contexto que anularam as vantagens da nossa região. Deu-se aos investidores, mais uma vez, um sinal de que os custos de contexto em Portugal variam imenso, ao sabor das agendas dos sucessivos Governos, criando uma instabilidade que é prejudicial à captação de novos investimentos. E se acham que é pouco, a suspensão da circulação de comboios na linha da Beira Baixa contribui para o agravamento da questão da mobilidade inter-regional. Afinal, que papel pode a Guarda ter na Logística nacional, se só tem acessos pagos, por estrada, e pela linha da Beira Alta, por comboio? Alguém no seu perfeito juízo considera ainda que a Guarda dispõe de bons argumentos para ganhar importância neste negócio? Não me parece…

Para mais, começa a perceber-se que, mais uma vez, não fica mais barato ao Estado cobrar portagens, por causa da forma como foram estabelecidas as compensações às concessionárias das ex-SCUT…

Por tudo isto, considero que ainda não é tarde para todo este processo ser repensado e a Guarda obter um compromisso mais satisfatório em matéria de introdução de portagens. Ainda não está perdida a oportunidade de o processo ser reavaliado e corrigir a injustiça que foi a decisão de introduzir portagens na A23 e A25. Espero ao longo desta e da próxima semana algum sinal neste sentido.

É bom que nós Guardenses, deixemos claro que, tal como Roma, a Guarda não paga a traidores!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Crónica Diária - Rádio Altitude

Mais uma que aqui fica:

Na semana passada ficámos a saber que na próxima época balnear, das duas praias fluviais que em anos anteriores têm sido distinguidas com a bandeira azul, só uma hasteará a respectiva bandeira. Isto porque a praia de Aldeia Viçosa não vão esta ano poder ostentar aquela distinção.
De acordo com informações prestadas pelo Presidente da Junta – a entidade que gere a praia fluvial – à imprensa, em dois parâmetros de qualidade da água as análises revelaram que a praia fluvial não cumpria o establecido. Este facto foi de certa forma desvalorizado pelo Presidente da Junta, que atribuiu o sucedido a um azar com os dias de recolha de amostras, por estes terem coincidido com alegadas descargas na Barragem do Caldeirão para turbinagem. Garantindo inclusivamente que a água tem a qualidade de sempre e que as pessoas podem ficar descansadas. E com estas palavras, desvalorizou de certa forma tudo aquilo que a Bandeira Azul representa.
Bem pode agora vir dizer que no próximo ano tudo será feito para reconquistar a distinção. Será sempre incoerente a busca por algo que se desvalorizou no passado. Obviamente, a Praia Fluvial de Aldeia Viçosa tem água de boa qualidade. De outra forma, não poderia sequer ser utilizada como estância balnear, porque à Bandeira Azul sobrepõe-se a Legislação Nacional em matéria de qualidade da água.
O que a Bandeira Azul verdadeiramente representa é uma garantia de excelência, de qualidade. Qualidade aqui entendida no duplo sentido de excelência e de conformidade. Não sou especialista em qualidade; mas sei que se há uma característica que um sistema de gestão da qualidade tem necessariamente de ter é poder assegurar que determinada ocorrência se faz sempre da mesma forma. E é isso que precisamente não foi possível demonstrar na Praia de Aldeia Viçosa. Porque, pelo que percebi, há demasiada variabilidade nos parâmetros de qualidade, que os põe fora dos limites establecidos.
Tratando-se de uma das 2 Praias Fluviais que têm recebido a Bandeira Azul, espero que a Junta, bem como as demais entidades com responsabilidade no sucedido, comecem desde já a tomar todas as providências para que no próximo ano a história não se repita. É certo que a bandeira Azul tornou aquela praia mais conhecida e que criou hábitos de visita nas pessoas; mas também é certo que existe sempre o risco da não atribuição este ano poder ser visto como factor negativo; e havendo escolha, as pessoas escolhem sempre aquilo que tem melhor qualidade perceptível. Em tempos de contenção como os que vivemos, parece-me que estas estruturas balneares ganham ainda mais importância, pela proximidade, pela oportunidade que representam. Pelo que tudo deve ser feito para que as pessoas possam usufruir de estruturas de qualidade; já que mais não seja para não se ficar com a ideia que gastámos tanto e afinal em coisas inúteis.
Não ficaria completa esta minha crónica sem que me congratulasse com a distinção que a Praia Fluvial de Valhelhas de novo ostentará durante a próxima época balnear.
Tem sido imenso o investimento naquela infra-estrutura e, pelos vistos, sem perder de vista a qualidade. Os meus Parabéns por mais esta distinção.
E agora, que o Sol nos faz já sonhar com Praia, seja em Valhelhas ou em Aldeia Viçosa, vamos aproveitar e passar umas tardes ao ar livre, em família ou com amigos, e tirar partido da Natureza belíssima de que dispomos – por enquanto sem encargos.
Boa época balnear a todos!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Crónica Diária - Rádio Altitude

Crónica desta semana:

Comemorámos esta semana 37 anos sobra a data que mais profundamente marcou Portugal nos últimos anos. Na mesma altura em que pela terceira vez na nossa história recente temos em casa os técnicos do FMI auditando as nossas contas com vista a um resgate financeiro.

As televisões brindaram-nos com as habituais entrevistas, ao cidadão comum e a um conjunto de homens que estiveram mais directamente ligados ao movimento que iniciou a revolução – o MFA - dando-nos uma imagem que vai da indiferença de alguns, à crispação de poucos, com o rumo que as coisas tomaram. Acabando, invariavelmente, pela pergunta que há anos ouço ser feita neste dia: “Será que valeu a pena?” Ora, para mim, o facto de a pergunta poder sequer ser feita é, por si só, a melhor resposta. Não são precisas mais palavras.

Tendo passado 37 anos, acho de certa forma natural que as comemorações não assumam hoje a importância que assumiram no passado. Parece-me óbvio, que aqueles que viveram os acontecimentos tenham ficado de tal forma marcados por eles que será sempre um momento central das suas vidas. Para os restantes, dando-se-lhes mais ou menos relevância, faz parte da história. Apenas isso. Com a ressalva de que é o acontecimento histórico que mais reconhecimento tem entre a população.

O momento que vivemos é doloroso: o nosso orgulho, a nossa soberania, os nossos ideais – tudo tem sido posto em causa pela maldita crise. Mas mesmo na situação difícil em que estamos, acho que vale a pena arregaçar as mangas e ir à luta pelo nosso País. Mesmo não sendo tudo aquilo que gostaríamos, ainda assim vale a pena.

Porque, apesar das injustiças, não perdemos a capacidade de nos indignarmos com elas. Porque apesar da pobreza, somos um povo solidário. Porque apesar dos problemas no ensino, continuamos a preocupar-nos em ser melhores, em fazer mais com menos.

O nosso País tem paisagens deslumbrantes, com montanhas que nos esmagam na nossa pequenez, com um mar imenso que nos abre todos os horizontes, com um céu limpo que nos deixa sonhar com dias melhores.

Temos uma planície imensa, que a qualquer hora e em qualquer dia, nos permite escutar o silêncio e encontrarmos a nossa paz; temos montanhas cheias de vida, que a cada ciclo nos lembram que o tempo tudo renova e que o futuro é um símbolo da renovação.

Temos um património gastronómico diversificado, de grandes contrastes, que faz jus à nossa fama de povo engenhoso na hora de enganar as dificuldades. Talvez porque há muito tivemos de ganhar essa capacidade…

Somos um país de gente educada, que em todo o mundo é bem recebida e em quem se pode confiar para os trabalhos mais delicados.

Também em termos económicos, temos do que nos orgulhar: diversas empresas portuguesas são líderes mundiais no seu sector de actividade e a I&D portugueses são cada vez mais considerados pela comunidade científica.

Somos um país em que na generalidade dos lugares, podemos sair de casa a qualquer hora do dia e passearmos por onde quisermos sem que ninguém nos incomode, sem grandes preocupações com a nossa segurança. Onde os amigos aparecem em casa uns dos outros, mesmo sem avisar, e são sempre bem recebidos!

Por tudo isto, eu gosto de Portugal. Gosto de cá viver, embora também gostasse que fosse melhor na justiça, na sáude, na educação.

Ainda assim, acho que vale a pena lutar por ele; para que continue a ser o nosso país, feito à nossa imagem. Tudo isso, pesados todos os aspectos negativos e positivos, vale alguns sacrifícios que de certeza teremos de fazer nos próximos anos.

Mas faz com que o sacrifício seja mais ligeiro. Sinto que no final, vai valer a pena!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Crónica Diária - Rádio Altitude

Mais uma crónica:

"Em 2010, segundo os últimos números conhecidos, a dívida externa de Portugal foi de 87% do PIB. Nos Estados Unidos, foi de 99%. O défice das contas do Estado foi de 8,6%. Nos Estados Unidos foi de 8,9%.
Quererá isto dizer que, a julgar pelas contas públicas, a situação dos Estados Unidos é pior do que a nossa? Não sei. O que sei é que a situação das nossas contas públicas não explica, por si só, as dificuldades que temos enfrentado em nos financiarmos nos mercados internacionais. Que levaram a que, para salvaguardar a nossa solvabilidade, tenhamos de ter pedido ajuda externa, com as penalizações que daí advirão. Porque, não tenhamos ilusões, as medidas que nos vão ser impostas não o serão para ajudar a pôr em ordem as contas públicas. Servirão, exclusivamente, para que aqueles que nos vão emprestar dinheiro recuperem o mais rapidamente o capital investido – bem como os respectivos juros – bem entendidos.
Iremos pagar esta ajuda externa com língua de palmo, sem que isso signifique que haja uma verdadeira correcção da situação que nos conduziu a este atoleiro. E iremos pagá-la adoptando uma política fortemente recessiva, que atrasará a nossa recuperação económica e comprometerá a nossa capacidade de investimento nos próximos 3 a 4 anos – a confirmarem-se os cenários que têm sido dados como mais prováveis pelos analistas, que por vezes mais não fazem do que deitar-se a adivinhar…
E isto será válido tanto para entidades públicas como privadas.
Há apenas uma pequena nuance: a austeridade não nos vai ser imposta, como alguns parecem querer fazer-nos acreditar. A austeridade em que vamos viver nos próximos anos teremos de ser nós a impô-la a nós próprios, se quisermos reunir as condições exigidas por quem nos pode emprestar dinheiro. Não é algo que vem de fora; é uma escolha nossa. Porque há sempre por onde escolher. Embora, neste caso, poucas dúvidas tenha que entre os males possíveis, a ajuda do FEEF e do FMI é o mal menor.
Se pensarmos na Guarda, a situação não é muito diferente. As principais entidades públicas vêm a sua actuação futura fortemente comprometida devido à situação difícil que o país atravessa. Nem seria de esperar que fosse diferente. Mas eu esperaria que não se manifestasse em questões tão básicas como aquelas a que vamos assistir. Se pensarmos que 2 das maiores instituições públicas da Guarda são o Hospital e o Município, e que não terão como fugir à austeridade que teremos de nos impor a nós mesmos, não será difícil perceber que alguns dos planos que estas instituições têm terão inevitavelmente de ser, no mínimo e na melhor das hipóteses, adiados.
Do lado do hospital, temo que a 2ª fase da expansão – que levaria à requalificação do pavilhão mais antigo onde ainda existem serviços em funcionamento – seja vítima deste processo. E se acho que há sacrifícios que têm de ser feitos, também confesso que não esperaria que, no sec. XXI, ainda tivéssemos um pavilhão hospitalar com as características daquele. Isto num país que se dá ao luxo de ter construído em 2004 estádios que hoje praticamente não são utilizados e que custaram milhões.
Do lado da Câmara, se já hoje se luta com dificuldade em arranjar verbas para requalificar o Parque Industrial que necessita obras há mais de 10 anos, então que fará nos anos que aí vêm... Se já hoje vive sufocada com o peso dos juros da sua imensa dívida, o que acontecerá após a mais que previsível subida das taxas de juro que já começou este mesmo mês, com o Banco Central Europeu a subir a suas taxas de referência… Mesmo sabendo que, apesar desta difícil situação, não se coibiu de adquirir recentemente mais um edifício para o seu espólio, ao invés de utilizar esse dinheiro para satisfazer compromissos anteriormente assumidos.
De uma coisa temos de nos mentalizar todos: o nosso modo de vida vai ter de ser alterado. E o sector público, neste caso, terá de dar o exemplo… Mesmo não perdendo de vista que foi o sector financeiro que despoletou toda esta situação, os políticos portugueses dos últimos 20 anos – salvo poucas honrosas excepções – foram demasiado ávidos na altura de assumir compromissos para o futuro. E o futuro chegou mais depressa do que aquilo que estavam à espera!"

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Indústria na Guarda


As 2 primeiras fábricas - merecedoras desse nome - que conheci foram a extinta fábrica da Renault e a dos Lacticínios do Mileu. A primeira porque o meu Pai lá trabalhou muitos anos. A segunda porque a visitei para fazer um trabalho escolar, quando teria uns 10 ou 11 anos.
Da primeira retenho a sofisticação do equipamento, o tamanho e organização. Da segunda, a amabilidade com que o responsável nos recebeu e nos guiou ao longo da fábrica, dos processos, dos equipamentos, não regateando tempo para todas as explicações que miúdos de 10 anos precisam para perceber como se produzem lacticínios em ambiente industrial.
A Renault, após dar lugar a Reicab, e esta à Delphi, fechou definitivamente no ano passado.
Os Lacticínios do Mileu, a crer nas notícias esta semana veículadas pelo jornal "O Interior" poderá não ter destino diferente. Ou seja, dois marcos da nossa cidade em risco de desaparecer em pouco tempo.
Leio no jornal que a sobrevivência pode estar numa candidatura ao PRODER. O que me preocupa ainda mais, porque a minha experiência na gestão de candidaturas a sistemas de incentivos públicos demonstra que muito raramente uma empresa em dificuldades tem capacidade para executar um investimento objecto de comparticipação, ainda que o respectivo projecto seja apoiado. Além de que há condições de acesso ao financiamento que uma empresa em dificuldades dificilmente ultrapassa...
O empresário diz que há mercado, mas tem dificuldades em cobrar; e aponta alguma culpa às empresas de distribuição e às suas políticas de compras. Certo é que nos supermercados que frequento, nunca vi à venda por exemplo a manteiga do Mileu, que acho muito boa.
Se calhar devíamos preocupar-nos mais em "comprar o que é nosso", da Guarda. No próximo sábado vou tentar comprar um pacote de Manteiga, antes que esgotem definitivamente...