"Celebrou-se ontem mais um dia do trabalhador. A acreditar nos inquéritos das estações de televisão – que de inquérito, na verdadeira aceção do termo pouco têm – este é
um feriado que cada vez tem menos significado para os portugueses.
A minha geração, que atualmente representa uma parte muito significativa da força de trabalho disponível no país, entrou no mercado de trabalho quando praticamente tudo
estava feito. O descanso semanal, 22 ou mais dias de férias pagas, feriados, pagamentos por horas extraordinárias, horários de trabalho legalmente limitados ou subsídios de férias e de natal são exemplos de benefícios que encontrámos e que julgámos estarem sempre assegurados. Apesar de já não sermos da geração que encarava o emprego como algo definitivo, “para a vida”, como se dizia há muitos anos atrás, achávamos que essa incerteza podia ser contornada, uma vez que vivemos um longo período de crescimento económico e em que havia trabalho para quase todos.
Mas um dia percebemos que as coisas não são exatamente assim. E que os benefícios, que alguns conquistaram com longas lutas, manifestações, greves e muita diplomacia
afinal poderão não estar assegurados no futuro.
Das teorias clássicas da economia, capital e trabalho eram os 2 fatores de produção
indispensáveis à produção de riqueza e os motores das lutas de classes que se travaram desde sempre. O Capital – fosse ele a terra, matérias primas ou, mais recentemente, o dinheiro – teve sempre a primazia sobre o trabalho porque estava concentrado nas mão de muito poucos; o trabalho, por outro lado, estava muito disperso, assim dispersando o poder que dele poderia advir. E esse poder só foi concentrado por forma a poder tratar de igual para igual o poder que advinha da posse do capital por ação de gente que lutou para mobilizar os trabalhadores; de gente que se dedicou ao sindicalismo, abdicando muitas vezes do conforto da indiferença e da sua própria segurança pessoal para lutar por uma causa de muitos.
Assim foram feitas as grandes conquistas em matéria de proteção dos trabalhadores. Basta recordarmos que há pouco mais de 50 anos férias, descanso no fim de semana ou
horários de trabalho eram conceitos ignorados pela maior parte dos trabalhadores.
Depois de um período em que todos gozámos os frutos dessas conquistas, vem outro em que tudo é posto em causa. E os sinais que vamos recebendo são preocupantes: o fator
trabalho tem sido – pelo menos no nosso país- fortemente desvalorizado, em detrimento do fator capital. E isto ocorre numa época em que todos estamos adormecidos pelo doce perfume dos privilégios que sempre conhecemos. Veja, a título de exemplo, que o Estado cortou os pagamentos pelo trabalho aos seus trabalhadores, mas não cortou os pagamentos por capital aos seus financiadores.
Ou seja, mais uma vez a história repete-se: o capital encontra-se concentrado
nas mãos de poucos e tem o rosto mais oculto do que nunca, com os grandes
fundos globais de investimento a serem o rosto invisível de um poder que tudo
pretende submeter à lógica da rentabilidade. E o trabalho está de novo
disperso, porque as pessoas afastaram-se das organizações que tradicionalmente
os representavam nesta luta – os sindicatos, com grande culpa destes, que não
tiveram a capacidade de se adaptar às novas realidades dos tempos que vivemos.
Porque o facto de a história se repetir não quer dizer que tal ocorra em contextos exatamente
iguais, e os sindicatos não tiveram a lucidez de perceber as diferenças e de se
recolocarem no tabuleiro de jogo por forma a tirar partido das novas condições.
Exemplos disso
mesmo foram as comemorações promovidas para este dia: fórmulas repetidas anos a
fio, com a previsibilidade e a rotina a liquidar à partida qualquer hipótese de
fazer chegar aos destinatários uma mensagem mobilizadora.
Espero que o dia
que ontem se celebrou possa ter feito alguns refletir sobre o caminho que as
coisas estão a levar. Alguns que possam servir de inspiração para mobilizar
aqueles a quem a revolta começa a incomodar seriamente para uma tomada de
posição clara face à situação que se vive. Para, quem sabe, novas formas de
encarar a defesa do trabalho face às agressões do capital…"
Pensamentos, gostos e desgostos sobre a cidade onde nasci e escolhi morar. E outras coisas que por vezes me passam pela ideia...
terça-feira, 26 de junho de 2012
terça-feira, 12 de junho de 2012
Workshop “Vamos falar de sexualidade”
A Associação de Pais do Agrupamento de Escolas da Área Urbana da Guarda organiza na próxima quarta feira um workshop sobre o tema “Vamos falar de sexualidade”, em colaboração com a Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico da Guarda. Trata-se de um workshop destinado aos pais dos alunos do agrupamento para debater temáticas ligadas à sexualidade juvenil. A inscrição pode ser feita por neste email. Mais informações aqui. Será
às 18.00H do dia 13 de Junho na Biblioteca da Escola de Santa Clara.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Concorrência
1. Em 2 praças da Guarda estão instalados ecrâs gigantes de video para as pessoas assistirem aos jogos do Europeu de Futebol; em ambos há esplanadas de bares; num caso foi um bar que pagou a instalação; no outro, foi a autarquia; acham que ambos concorrem em idênticas condições?
2. em 2 ginásios da Guarda o nº de clientes tem baixado devido à subida do IVA e ao agravamento das condições de vida que todos experimentamos; num deles, os gerentes têm de manter os pagamentos a fornecedores, fazer promoções e mesmo baixar o preço das mensalidades para poder subsistir; noutro, o preço consegue ser mais baixo que no primeiro, mas é explorado pela autarquia; acham que ambos concorrem em idênticas condições?
Se há áreas em que o investimento público é fundamental para assegurar o acesso a determinados serviços que não são financeiramente sustentáveis - o TMG é disso um claro exemplo e uma aposta da Câmara à qual reconheço um enorme mérito; outro será o complexo de Piscinas Municipais - outras há em que o investimento público desvirtua o mercado e faz concorrência desleal aos operadores privados.
Por isso, é importante que se revejam os critérios exploração de atividades económicas por parte da Câmara.
domingo, 10 de junho de 2012
Crónica Diária - Rádio Altitude
Crónica de 18 de Abril:
"Na semana passada, a Câmara da Guarda resolveu reunir o Conselho Municipal de Educação. Trata-se de um órgão relativamente desconhecido, que ninguém parece saber quando foi reunido a última vez, variando as opiniões entre 2005 e 2006 – isto num órgão cujo regimento em vigor determina que reúna ordinariamente no início e fim do ano escolar! É órgão presidido pela Câmara da Guarda na figura do seu presidente, tratando-se de um órgão consultivo da Câmara em matéria de educação, cujas resoluções não são vinculativas e onde estão representados os
diversos tipos de instituições envolvidos em matérias de educação – desde professores a assistentes operacionais, IPSSs, forças de segurança, Pais, etc.
Os motivos principais da reunião foram 2: o encerramento de mais escolas do 1º ciclo na Concelho e a reorganização dos agrupamentos de escolas do Concelho.
No que toca às escolas do 1º ciclo, de novo nos surgem algumas cujo nº de alunos é inferior a 22 (para a soma dos 4 anos), razão de se equacionar o seu encerramento. Embora ele vá, nalguns casos, sendo adiado, é muitas vezes quase inevitável. É difícil defender-se uma escola na plena aceção da palavra com um nº de alunos tão baixo; e com tendência a baixar ainda mais. E se é difícil de explicar por
aqui, mais difícil ainda é perceber esta realidade num gabinete em Lisboa, rodeado de milhões de pessoas num raio de 10 ou 15 km. Ouvi há tempos, da boca de um Presidente de Junta do Concelho da Guarda, algo que define plenamente a tragédia que assola as nossas aldeias: dizia este Presidente de Junta que ele e outros colegas se defrontam com o encerramento das escolas das suas aldeias, ao mesmo tempo que com a necessidade de alargar os cemitérios. Dando uma imagem perfeita de para onde caminha o interior. Primeiro as localidades mais
pequenas, a que se irão seguindo outras um pouco maior, até restar apenas um aglomerado macrocéfalo que poderá um dia ser a capital de um país completamente deserto, que a sua força centrífuga criou, de tanto puxar as energias – e os cidadãos – para o seu centro. Felizmente vão, aqui e ali, surgindo alguns movimentos que contrariam esta tendência predadora relativamente ao interior.
O segundo assunto tratou da intenção do Governo de agrupar ou reagrupar escolas, criando escolas maiores. Para dar um exemplo, na Guarda poderão agrupar-se escolas de cerca de 1400 e 800 alunos, ficando no seu lugar uma nova escola com 2200 alunos. Pessoalmente, tenho as maiores reticências face a estes agrupamentos. Percebo bem a necessidade de mais eficiência na gestão de recursos e na logística, da existência de uma plataforma partilhada de equipamentos e procedimentos; mas parece-me que faria sentido equacionar soluções de unificação de back-office das escolas em detrimento da mera fusão de escolas.
Um dos motivos pelos quais pretendo continuar a viver por cá é a educação e formação dos meus filhos. E nesta, um dos aspetos que tenho valorizado é o facto de conhecer as pessoas que os apoiam nas escolas, professores e pessoal auxiliar; de saber os seus nomes. E de me sentir reconhecido por eles. E este é um aspecto que vejo seriamente ameaçado com os agrupamentos que agora se anunciam.
Na minha opinião, ambas as questões enfermam da visão de um conjunto de pessoas que não conhece outra realidade que não seja a das grandes estruturas: grandes escolas, em grandes aglomerados de população, com grande nº de recursos envolvidos. Porém, completamente descaracterizados, despersonalizados. E esquecendo que não é essa a nossa vivência, a das gentes das regiões mais afastadas das grandes
cidades.
Na Guarda, os ritmos são diferentes. Porque não moramos todos num bairro – apesar de cabermos num bairro de Lisboa, e precisamos de espaço e tempo para vivermos.
Mas essa parece ser uma lógica que escapa a quem decide nestas matérias, admito que por ignorância, que terá como efeito que, mais dia menos dia, tenhamos mais alguns dos inconvenientes das cidades de maior dimensão, sem as respetivas vantagens.
E na hora de equacionarmos se vale a pena cá continuar a viver, a nossa decisão
poderá levar ao fecho de mais escolas, e ao alargamento dos cemitérios…"
sexta-feira, 1 de junho de 2012
MORTE
De novo a morte vai ser espetáculo na Guarda.
Quando nos mais diversos sítios do globo temos notícia de serem dados passos para o fim do espetáculo repugnante e lamentável que são as touradas, na Guarda parece que cada vez se investe mais nelas!
E de novo aí está mais um destes tristes eventos: a Câmara, através da Agência de Promoção da Guarda, vai organizar uma tourada no âmbito da Feira de São João.
No que a mim diz respeito, será um dia negro para a nossa cidade. Um dia em que se vai celebrar a morte de animais, montando à sua volta um espetáculo que considero repugnante e incompatível com valores do nosso tempo.
Costumo divulgar os eventos que por cá se vão realizando - no entrudo, no feriado municipal - e tenho convidado familiares e amigos para visitarem a Guarda nessas ocasiões. Fá-lo-ia também a propósito da Feira de São João - uma iniciativa que tem sido um bom exemplo de atração turística nos últimos anos - não fora esta desgraçada ideia de agora lhe pespegar uma tourada.
No que se refere aos patrocinadores, não irei comprar um alfinete que seja a qualquer um deles durante este ano! Será a minha forma de protesto. Espero que outros se juntem a mim.
Uma última nota para dizer que espero das associações de defesa dos animais da nossa cidade uma posição clara sobre a realização deste evento.
Atualização em 10-6-20112: para além de patrocinadores, o cartaz do evento anuncia também um conjunto de media partners, entre eles a Rádio Altitude, com quem mantenho uma colaboração quinzenal. Informei já o diretor da Altitude que, a título de protesto, não gravarei a minha próxima crónica, que deveria ir para o ar em 13-06-2012.
Atualização em 10-6-20112: para além de patrocinadores, o cartaz do evento anuncia também um conjunto de media partners, entre eles a Rádio Altitude, com quem mantenho uma colaboração quinzenal. Informei já o diretor da Altitude que, a título de protesto, não gravarei a minha próxima crónica, que deveria ir para o ar em 13-06-2012.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Crónica Diária - Rádio Altitude
Crónica em 4 de Abril:
"Em Portugal vivem-se dias de angústias e incertezas.
Incertezas quanto ao futuro do emprego, do “wellfair state” que era um dos desígnios do 25 de Abril que dentro de 3 semanas comemoraremos, quanto àquilo que os próximos tempos nos trarão. Já poucos arriscam prever como será a nossa vida daqui a 2
ou 3 anos, quanto mais daqui a 10…
Mas a agenda mediática de alguns grupos de pressão consegue tirar desta incerteza proveitos que, mesmo para os mais liberais, são no mínimo indecorosos.
Dou como exemplo as declarações de ontem do Presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal. Como alguns terão ouvido, foi sugerido durante a apresentação do relatório da 3ª revisão do Programa de Assistência Financeira a Portugal que os cortes nos 13º e 14º meses a funcionários do Estado e pensionistas poderão passar a ter de ser permanentes. No mesmo dia, esse responsável da CIP admitiu
à imprensa que esses cortes podem ter de se estender aos privados, cito “em função de uma correta política salarial assente na produtividade” (fim de citação).
A tese do senhor assenta na ideia de que os salários devem refletir os desajustamentos existentes – ou sejam, devem ser desvalorizados em função da produtividade das empresas – e os aumentos devem ser feitos em função não de índices de inflação, mas de ganhos de produtividade.
Num primeiro momento, indignei-me seriamente. Sou trabalhador por conta de outrem e, na minha organização, a maior ou menor produtividade decorre de quem tem competências para definir os processos de produção, não de quem os executa. Ou seja, poderia no limite verificar-se que estaria nas mãos – ou, se quisermos ser mais exatos, na competência – de 5 ou 6 pessoas o facto de 300 serem ou não mais produtivas, independentemente dos seus esforços individuais. Cabe aqui lembrar que diversas multinacionais que atuam em Portugal pagam salários bem
acima da média e, que se saiba, não se queixam de falta de produtividade; queixam-se bem mais da dificuldade de relacionamento com as instituições do Estado – a burocracia – com especial destaque para a justiça. Mas alterações neste pilar fundamental da Democracia, não conhecemos nenhuma… Um exemplo disto que falo é a Autoeuropa, que todos conhecem, cuja fábrica é uma das mais produtivas do Grupo VW.
Mas depois de refletir algum tempo, confesso que me precipitei. E que até concordo com o senhor. Se pensarmos que mais de 90% das empresas em Portugal são Pequenas Empresas, a maior parte destas com menos de 9 trabalhadores, podemos perceber que será fácil aos empresários aumentar a produtividade das suas empresas. Perguntar-me-ão: mas como?
Considerando a produtividade, em termos simplistas, como aquilo que se produz (trabalho) em função dos recursos empregues (salários pagos), temos pelo menos 2 caminhos possíveis: aumentar a produção pagando o mesmo, ou manter a produção pagando menos.
E é aqui que reside a facilidade da coisa: quantas empresas conhecem em que o administrador ganha 3, 4 ou 5 vezes mais que os trabalhadores produtivos? Dir-me-ão que é ele que corre os riscos inerentes ao facto de ser empresário. Mas isso deve ser compensado em remunerações do capital, não em remunerações do trabalho como sucede entre nós. Quantas empresas conhecem que têm nos seus quadros de pessoal a mulher ou filhos do empresário, sem nunca ninguém os ter visto passar uma hora na empresa?
Basta cortar nestas “gorduras”, como agora se chama ao desperdício, para aumentar, nalguns casos significativamente, a produtividade de muitas empresas. E assim pode ser feito o caminho para todos poderem ganhar significativamente melhor!
É verdade que não percebo muito bem como se propõe a CIP convencer os empresários de que este é o caminho a seguir, mas eu acredito que pode ser por aí…
Ou então estou apenas a armar-me em cínico, porque sei muito bem que o que o senhor da CIP queria era uma coisa completamente diferente…"
sábado, 26 de maio de 2012
Centro Tecnológico
O meu post anterior refere-se a uma crónica que passou na Rádio Altitude em 21 de Março.
Passadas cerca de 2 semanas, em 6 de Maio, ouvimos o deputado Basílio Horta referir em intervenção pública na Guarda, o excelente parque tecnológico que cá temos. Obviamente ficámos todos - ou pelo menos uma grande parte de nós - sem saber a que se referia o deputado Horta. Foi então explicado pela Câmara da Guarda que o deputado se tinha referido não a um equipamento existente, mas um equipamento que iremos ter. Um centro tecnológico que faz parte da PLIE e que servirá de apoio à Incubadora de Empresas.
Obviamente, isto é uma boa notícia. Se alguém que é deputado, foi durante alguns anos presidente da AICEP e até já foi candidato a presidente da República refere publicamente o "excelente parque tecnológico" mesmo antes dele existir, imaginem só os encómios que não lhe fará depois de estar em funcionamento!!!
Eu por mim, só gostava de saber:
1. o que é um centro tecnológico;
2. quando vai estar concluído e posto a funcionar;
3. a que incubadora de empresas dará apoio.
Passadas cerca de 2 semanas, em 6 de Maio, ouvimos o deputado Basílio Horta referir em intervenção pública na Guarda, o excelente parque tecnológico que cá temos. Obviamente ficámos todos - ou pelo menos uma grande parte de nós - sem saber a que se referia o deputado Horta. Foi então explicado pela Câmara da Guarda que o deputado se tinha referido não a um equipamento existente, mas um equipamento que iremos ter. Um centro tecnológico que faz parte da PLIE e que servirá de apoio à Incubadora de Empresas.
Obviamente, isto é uma boa notícia. Se alguém que é deputado, foi durante alguns anos presidente da AICEP e até já foi candidato a presidente da República refere publicamente o "excelente parque tecnológico" mesmo antes dele existir, imaginem só os encómios que não lhe fará depois de estar em funcionamento!!!
Eu por mim, só gostava de saber:
1. o que é um centro tecnológico;
2. quando vai estar concluído e posto a funcionar;
3. a que incubadora de empresas dará apoio.
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